“E você me olha com essa cara de quem não entende nada, fica procurando vestígios e respostas e sempre volta. Com essa cara de sempre e com esse sorriso malicioso que tem toda essa malicia infantil que você sempre demonstrou. Se você que ama dar uma de sabichão não está entendendo nada, imagine eu que até hoje tento entender aquelas contas de matemática, por que meu cabelo me odeia tanto e por que final de novela é sempre tão parecido. Você que gosta de dar as respostas e agora fica ai, me olhando com essa cara de que precisa de resposta mas não sabe aonde achar. Cara, eu também não sei. Não me pergunte, por favor. Eu simplesmente gosto, você simplesmente sempre volta - ou nunca vai por completo. Nunca fui a pessoa que sempre teve as respostas feitas, esse sempre foi o seu papel (me deixar descabelada de ódio com seu ego e sua mania de querer ter razão) então por favor, não me pergunta por que sempre que você tá mal, me liga e pede conselho, não me pergunta o por que de você gostar de rir do jeito que eu me visto e do desastre completo que eu sou, não me pergunta por que a gente briga tanto, se xinga tanto e se amaodeia tanto, eu não sei. Você sabe que eu não tenho nada a oferecer, assim como eu também sei que você não tem nada - material, claro. Mas, no final a única coisa que importa é isso: ter um ombro pra apoiar a cabeça, ter um moletom grande pra usar nos dias frios, um sofá pra deitar e ver filmes no final da tarde, um amigo pra ir beber num dia da semana e um alguém que gosta de saber tudo, mas não entende a razão de gostar tanto de alguém tão desajustada, errada e inconsequente que nem eu.
“Divide comigo?
a cama,
a casa,
a vida?
“Hoje por acaso eu encontrei umas coisas antigas, e nessas coisas encontrei algo que tinha escrito pra você. Porra, eu ri sozinho daquelas besteiras tão ingênuas. Eu me lembro que você nunca entendia as minhas teorias sobre nós, mas ficava ali bem séria e achava bonito as coisas que eu dizia. Veja só nós dois agora, acabou, inexplicavelmente, acabou. Mas eu ainda me lembro de muita coisa sentindo saudade. Mas é uma saudade esperançosa, sinto que a gente ainda pode se encontrar em uma calçada e resolver fazer tudo diferente. Hoje sem querer encontrei umas coisas empoeiradas, e me deu uma vontade gigante de encontrar você.
“Hoje eu queria estar só.
Mas não sozinho.
Só contigo.
“Mô, to com saudade
to com frio
volta logo vai.
“Perguntaram a John Lennon: Por que você não pode ficar sozinho, sem a Yoko?
E ele respondeu: Eu posso, mas não quero. Não existe razão no mundo porque eu devesse ficar sem ela. Não existe nada mais importante do que o nosso relacionamento, nada. E nós curtimos estar juntos o tempo todo. Nós dois poderíamos sobreviver separados, mas pra quê? Eu não vou sacrificar o amor, o verdadeiro amor, por nenhuma piranha, nenhum amigo e nenhum negócio, porque no fim você acaba ficando sozinho à noite. Nenhum de nós quer isto, e não adianta encher a cama de transa, isso não funciona. Eu não quero ser um libertino. É como eu digo na música, eu já passei por tudo isso, e nada funciona melhor do que ter alguém que você ame te abraçando.
“Então, eu passei a confiar mais em mim, a acreditar mais no meu taco, e crer que sim, eu posso e consigo. Você não sabe, mas ontem eu dormi com a luz apagada, e isso foi uma evolução pra mim, pois antes eu me juntava com ela e formávamos só um, tinha medo dessa junção. Mas não, ontem eu não me juntei, ficamos separados, sabe? Tipo águe e óleo, não se juntam. Eu passei a atravessar a rua que eu esbarrei com você semana passada, e vi que a lata de lixo ainda estava encostada na parede, quem diria que uma lata de lixo me lembraria você… Pois bem, meu bem, ontem eu dormi sozinho, e independente da solidão e de todo vazio, eu me senti bem. Mas não por estar sozinho ou algo do tipo, mas por acreditar que diante dos problemas, ainda há uma saída. Dormi, mas não sonhei com você, talvez de tanto te odiamar, acabei te esquecendo por um dia.